Santo Antônio do Descoberto (GO) – O número de cidadãos que se autodeclaram quilombolas no cadastro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) registrou um salto significativo para o pleito de 2026. De acordo com os registros oficiais, o contingente passou de 95.409 nas eleições municipais de 2024 para 188.371, representando um crescimento de quase 100%. O estado de Goiás exemplifica esse movimento, com a subida de 3.625 para 5.394 eleitores identificados como quilombolas.
Mobilização territorial
A região Nordeste concentra atualmente o maior volume desse eleitorado no país, somando 95.901 pessoas, o que equivale a mais da metade do total nacional. Especialistas vinculados à Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ) avaliam que o fenômeno é fruto de uma maior visibilidade das pautas dessas comunidades e do fortalecimento da consciência coletiva sobre o papel dos territórios na preservação da biodiversidade.
O engajamento dos jovens tem sido um pilar central desse processo. Em Santo Antônio do Descoberto, no interior de Goiás, a estudante Thauany Silva, de 16 anos, prepara-se para votar pela primeira vez ao lado de seu avô, o agricultor Joaquim Moreira, de 87 anos. Para a adolescente, o título de eleitor é uma ferramenta de cidadania e de responsabilidade sobre o futuro da sua comunidade.
Consciência e proteção
A necessidade de defender o território e exigir políticas públicas efetivas, como a titulação de terras, move o interesse de novas gerações. Franciele Silva, estudante de direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e integrante da comunidade Rio dos Macacos, destaca que o acompanhamento das decisões políticas é essencial para a sobrevivência e o modo de vida local. Segundo ela, a compreensão de que as esferas governamentais incidem diretamente sobre o cotidiano quilombola é o que motiva a participação ativa.
Apesar do avanço na representatividade, lideranças como Bia Nunes apontam para a necessidade de maior suporte estatal. Nunes, que integra programas de proteção após sofrer ameaças por sua atuação política, defende a criação de campanhas públicas contínuas que incentivem não apenas o registro eleitoral, mas a candidatura de representantes quilombolas, garantindo segurança em um contexto que ainda registra vulnerabilidades e pressões externas.
Combate à desinformação
O educador financeiro Rafael Costa, da comunidade Mesquita, em Goiás, observa que o fortalecimento político também atua como um escudo. Para ele, o interesse em temas como representatividade e orçamento público ajuda a proteger a população contra desinformação e golpes. O amadurecimento dessa consciência política entre jovens adultos é visto como um caminho indispensável para a manutenção dos direitos e a integridade dos territórios frente aos desafios contemporâneos.
