Brasília (DF) – O avanço das hostilidades contra as mulheres no ambiente político brasileiro motivou o lançamento de uma campanha nacional de conscientização por órgãos eleitorais nesta terça-feira, dia 22 de outubro. A iniciativa surge em um momento de forte escalada de processos judiciais por violência política de gênero no país, que registrou uma alta expressiva nos últimos quatro anos.
Dados do Tribunal Superior Eleitoral revelam que as ações desse tipo na Justiça Eleitoral saltaram de 15 casos, em 2022, para 177 ocorrências registradas até setembro de 2026. Além disso, o Ministério Público Federal contabilizou 436 denúncias desde 2018, sendo que mais de 50% envolvem ataques de teor moral e 40% configuram violência psicológica.
Impacto desproporcional sobre mulheres negras
O problema atinge os grupos sociais de forma desigual no território nacional. Um levantamento do Instituto Marielle Franco apontou que 87% das vítimas de violência política entre 2021 e 2025 eram negras, evidenciando o recorte de raça nesse cenário de agressões.
Durante a apresentação da nova campanha institucional, movimentos sociais e de defesa dos direitos das mulheres entregaram uma carta ao presidente da corte eleitoral, ministro Nunes Marques. O documento alerta para episódios recentes de ameaças de morte, agressões físicas e exposição de dados pessoais de candidatas, especialmente negras e mulheres LBT.
Segundo a ministra Estela Aranha, o efeito dessa violência vai além das agressões individuais e compromete a integridade do sistema democrático brasileiro. A magistrada ressalta que a intimidação afasta as mulheres dos cargos públicos e desencoraja novas candidaturas, esvaziando o debate público e a representatividade da sociedade.
Baixa representatividade no cenário nacional
Atualmente, a participação feminina na política do país está entre as mais baixas do mundo, ocupando a 135ª posição em um ranking global de 184 nações. No Congresso Nacional, a presença de parlamentares mulheres é de apenas 17,5%, índice inferior ao registrado em países sob regimes fechados.
A disparidade de gênero é ainda mais severa nas administrações locais, onde apenas 16% das prefeituras brasileiras são comandadas por mulheres, e mais de 700 cidades não contam com nenhuma representante feminina em cargos eletivos. Raquel Branquinho, que atua na coordenação de combate à violência política de gênero da Procuradoria-Geral Eleitoral, aponta que a legislação brasileira se alinha aos padrões internacionais, mas o grande obstáculo atual permanece na falta de segurança para a atuação dessas parlamentares.
