O cenário eleitoral brasileiro encontra-se atravessado por polêmicas e denúncias judiciais que, ao ocuparem o centro do debate público, marginalizam questões estruturais urgentes. Enquanto o caso Master e disputas institucionais monopolizam o noticiário, temas cruciais para a sobrevivência e o progresso da nação nas próximas décadas — como o envelhecimento populacional, a transição energética e o processamento estratégico de minerais críticos — permanecem ausentes das discussões entre os candidatos. Para Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), essa dinâmica impõe ao eleitorado uma falsa dicotomia, sugerindo que o foco na integridade das instituições é incompatível com o planejamento de um projeto de desenvolvimento nacional.
Engenheira eletricista e pesquisadora da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), Garcia lidera a principal entidade de defesa científica do Brasil desde 2025. Segundo a pesquisadora, o país vive um esvaziamento temático, no qual a ciência — setor que demanda previsibilidade orçamentária e estabilidade normativa — não encontra espaço nas campanhas. Para tentar reverter esse hiato, a SBPC criou o Observatório das Eleições, plataforma que reúne mais de cem propostas de políticas públicas voltadas ao desenvolvimento, abrangendo desde o enfrentamento às mudanças climáticas até o risco iminente de futuras crises sanitárias.
Historicamente, a pauta científica costuma ficar à margem do pleito, embora tenha ganhado alguma relevância durante a pandemia de covid-19 e, mais recentemente, em virtude de eventos climáticos extremos, como as inundações no Rio Grande do Sul e as severas secas e queimadas registradas em diversas regiões brasileiras. No entanto, o atual processo eleitoral reflete um desinteresse crônico da classe política com o futuro. Até o momento, o engajamento dos candidatos com o Observatório das Eleições é considerado tímido, com ausência significativa de postulantes aos cargos executivos estaduais e perda de tração nas adesões de candidatos ao Legislativo.
A presidenta da SBPC reitera que a integridade institucional e o cumprimento dos ritos processuais são fundamentais para o Estado Democrático de Direito. Contudo, ela alerta que a centralidade dada a vazamentos de informações e a disputas de narrativas prejudica a discussão sobre tópicos que afetam diretamente o cotidiano da população. Em uma análise sobre as prioridades, a entidade destaca a necessidade de o Brasil definir estratégias claras de soberania. Isso envolve, primordialmente, a soberania digital, a exploração sustentável de terras raras — essenciais para a indústria tecnológica global — e a prontidão do Sistema Único de Saúde (SUS) diante da inevitabilidade de novas pandemias.
Um dos pontos de maior apreensão para a comunidade científica é o horizonte de longo prazo, especificamente a mudança demográfica que o Brasil enfrentará em pouco mais de uma década, quando a população idosa superará a faixa etária produtiva. A pergunta que, segundo Garcia, não está sendo feita pelos candidatos é: que tipo de país o Brasil deseja ser para as próximas gerações? Sem uma inserção profunda da ciência no debate público, o Brasil corre o risco de retroceder à condição de simples exportador de matéria-prima, abdicando de sua autonomia tecnológica e científica em um mundo cada vez mais competitivo.

