O professor e militante do movimento hip-hop Hertz Dias, representante do PSTU na disputa pela Presidência da República, estruturou seu programa de governo sob a premissa de que o Brasil enfrenta um processo de recolonização e desindustrialização. Segundo sua análise, o país está submetido a uma dominação imperialista de potências capitalistas, o que gera graves reflexos sociais, como a precarização severa do trabalho, salários estagnados e o empobrecimento de grande parcela da população. Atualmente, dois terços dos brasileiros sobrevivem com até dois salários mínimos, um cenário que Dias pretende reverter por meio da construção de um modelo de gestão diretamente realizado pelos trabalhadores e aliados, visando o controle estatal das riquezas nacionais.
Transformações na economia e no trabalho
Um dos pilares centrais da campanha é a mudança profunda nas relações trabalhistas. O plano defende a abolição imediata da escala 6×1, substituindo-a por uma jornada semanal de 36 horas, mantendo a integridade dos vencimentos atuais. A proposta inclui a revogação integral das reformas trabalhista e da Previdência, além de proibir a pejotização e as terceirizações, que são vistas como mecanismos de vulnerabilidade. Para os trabalhadores de aplicativos, o candidato exige o reconhecimento formal do vínculo empregatício, garantindo direitos como férias, 13º salário, previdência e seguro contra acidentes, acompanhados de uma remuneração mínima por serviço prestado ou carga horária logada.
Para financiar essas mudanças, o PSTU sugere uma política tributária agressiva contra o capital. O programa prevê a aplicação de impostos sobre grandes fortunas acima de R$ 1 bilhão, o fim de benefícios fiscais para grandes empresas e a taxação progressiva sobre lucros empresariais e remessas de capital ao exterior. Além disso, propõe limitar a 25% a distribuição de dividendos privados, obrigando o reinvestimento do excedente produtivo no Brasil. A produção nacional de ouro e metais estratégicos seria integralmente expropriada, sendo incorporada às reservas cambiais para reduzir a dependência de moedas estrangeiras.
Infraestrutura e serviços públicos
A reestatização de setores privatizados — incluindo estradas, metrôs e ferrovias — é uma diretriz fundamental. Hertz Dias defende a tarifa zero no transporte público, administrado sob controle estatal e gerido pelos próprios trabalhadores. Na habitação, a estratégia baseia-se na criação de uma empresa pública de obras para construir moradias populares e urbanizar periferias, utilizando a expropriação de imóveis abandonados destinados à especulação imobiliária. A saúde também seria centralizada: o objetivo é um sistema 100% público e estatal, banindo organizações sociais e fundações, com prioridade para a produção nacional de medicamentos e insumos básicos.
Justiça social e pautas identitárias
O combate às desigualdades estruturais ocupa lugar de destaque no documento. O candidato defende a titulação de terras quilombolas e a demarcação de territórios indígenas, com a expropriação sem indenização de latifúndios que ocupem essas áreas ou que sejam improdutivos. No campo da segurança pública, o programa propõe a desmilitarização da Polícia Militar e a unificação das forças de segurança, focando o combate ao crime organizado no desmantelamento das fontes de financiamento e do patrimônio de máfias e milícias, em vez de operações militares em áreas pobres.
No que tange aos direitos de minorias, o plano prevê o acesso ao aborto legal, seguro e gratuito pelo SUS, além de licença parental compartilhada de um ano. Para a população LGBTQIA+, o projeto assegura terapias hormonais e cirurgias de redesignação, reforçando a rede de proteção social. Em relação à pauta racial, o programa estabelece cotas permanentes, punições severas para práticas racistas e a obrigatoriedade do ensino de história africana e indígena nas escolas. A estratégia de Dias reflete uma ruptura completa com os modelos econômicos tradicionais, focando no protagonismo da classe trabalhadora sobre os rumos da economia nacional.

